Archive for the ‘Contos de Umbanda’ Category

EXU DA TRONQUEIRA

agosto 11, 2009

Da entrada do terreiro observo os trabalhos. Os médiuns ocupam seus lugares. Velas já firmadas. Pontos irradiando.
Todos integrantes começam a bater cabeça enquanto a vibração dos pontos cantados e tocados pelos atabaques diversificam-se pelo salão. O dirigente recebe as coordenadas. Os mentores e guias irmãos ficam preparados.
Na assistência esperam consulentes, pessoas que frequentam a casa assiduamente, outros vindos pela primeira vez indicados por amigos. Umas pessoas estão emocionadas, não sabem explicar. Eu sei..são seus mentores que se fazem presentes.
Outras estão suando, passando mal, agoniadas, querendo sair. Espíritos trevosos vieram com elas, mas entendendo onde estão agora, prezam para sair antes que sejam capturados e resgatados. Com certeza não poderão sugar mais energias das pessoas que acompanham no plano terreno.
O dirigente inicia os trabalhos.Na corrente um médium bambea, parece que vai cair. Observo seu caboclo ao lado.
O médium é iniciante, não está totalmente integrado ao seu guia. Com fé e paciência, com o tempo, certamente incorporará seu caboclo. Demais médiuns da corrente já incorporaram.
O caboclo chefe manifesta-se no dirigente igual a primeira vez quando trouxe as primeiras mensagens.
Na sequencia que outros caboclos chegam a energia positiva se multiplica. A egrégora é fortificada.
Estes caboclos durante os passes retiram da assistência os obcessores, eguns e kiumbas. Limpam as pessoas perturbadas.
De um jeito sério e fraterno transmitem paz e segurança. Consequentemente levando esperança a muitas pessoas que têem em mente que seria o ´´último “lugar que procurariam ajuda na sua agonia. Agora sentem-se aliviadas.
Digo por experiência que em breve algumas delas estarão manifestando seus guias.
Todavia acostumado ver esta situação sempre me emociono.
De onde estou continuo a acompanhar os trabalhos.
Na assistência uma jovem que permanecia sentada, de repente levanta-se e pôe a vociferar.
Moça de voz melodiosa e serena transforma-se totalmente. Sua voz fica grave e arrogante.
Ela tenta agredir os cambonos da casa, que são médiuns auxiliares, habitualmente conduzam os necessitados para o salão principal onde são realizados os trabalhos.
O kiumba que acompanha a jovem é perigoso e ao cruzar a entrada: grita e xinga tentando machucar a moça possuida.
Tudo isso devido ela ter se afinizado com ele, pensando negativamente, acompanhando amigas em lugares de baixas vibrações, tomar atitudes contrárias ao modo que foi bem criada, permanecer ao lado de uma pessoa que não entende a caridade, entre outras situações.
Os caboclos alertas abrem a roda. Os atabaques soam em ritmo apropriado para a descarga energética.
O caboclo chefe olha para outro irmão de luz, que entendendo rodeia a moça criando um campo de força para que ela não se machuque. O caboclo da moça também irradia com força sobre ela.
Chegou minha hora, aproximo-me tranquilamente. O kiumba desesperado tenta evitar meu olhar.
Não percebeu, mas já teve suas forças exauridas pelos elementos dos trabalhos.
Sorrindo vou em sua direção. Ele ofende, grita e esbraveja.
O caboclo ordena pelo meu apoio.
Dou um salto na qual encosto a lâmina de minha espada no pescoço do kiumba. Domino-o com facilidade. Chamo outros guardiões que o amarram e colocam no liame, á beira de um círculo de velas. Durante os estudos os médiuns chamam de Mandala Ígnea. Um portal magístico.
O kiumba se joga dentro. Preferiu ser resgatado a uma dimensão paralela, para seu próprio aprendizado e evolução.
Foi esperto… se ficasse iria perder a garganta.
Outros kiumbas menores também são capturados e levados a lugares de merecimento.
A moça volta ao estado normal. Algumas pessoas da assistência comentam que as velas em poucos minutos queimaram muito rápido, estão no fim, faltando pouco para acabarem. Os menos entendidos colocam a razão num vento que não existiu ou na parafina que poderia ser fraca.
Não sabem eles o trabalho benéfico que se faz no astral durante o tempo que permanecem sentados.
Acham muito o tempo para espera. Eu acho pouco o tempo para trabalho.
Enfim, nós mentores e guias fazemos o que podemos segundo necessidade e merecimento de cada um.
Os caboclos acabam os descarregos tirando os resíduos e agradecem meu auxílio.
Volto ao meu lugar na tronqueira e observo o fim dos trabalhos.
Minhas velas, charutos e marafos estão firmados para segurança.
Os trabalhos terminam, todos se vão felizes.
E eu na porteira estou…Sentinela.

Mensagem do Caboclo:

A têmpera do espírito se molda com as suas atitudes. Os encarnados que almejam chegar em algum lugar devem ter fé e observar os bons exemplos dos irmãos terrenos e seguí-los com resignação. A hierarquia respeitada pelo espírito é sinônimo de lucidez e entendimento. O tempo cronológico terreno não é nada perante a eternidade dos Planos Espirituais. Várias são as Colónias Espirituais que se espalham envoltas da Crosta Terrestre, prontas para receberem os novos irmãos que lá chegarão após desencarnarem. Impreterivelmente vão se coligando conforme afinidade e com sede de evolução uma vez que desperdiçaram o tempo enquanto tiveram em Plano Terreno, encarnados, ligados aos vícios de toda sorte. Mas todos os espíritos terão serventia perante o Criador. Os Guardiões responsáveis pelo direcionamento destes irmãos já os observam desde pretéritas ações que lhes compõe o currículo eterno, terão o merecimento reeducativo. O desencarne é o grande nivelador Universal. E a passagem entre Planos é inevitável. Cabe ao espírito se lapidar durante o tempo cronológico que ainda sobra enquanto permance no Plano Terreno. Oxalá abençoe a todos. Que os mais evoluídos ensinem e os menos esclarecidos se dediquem ao próprio crescimento moral e espiritual.

Livro – ARQUEIRO DOURADO

agosto 11, 2009

Capítulo 1 – A Chegada Além Túmulo

O céu está claro, o Sol brilha por volta das dez horas da manhã. Ventos brincam numa cinzenta alameda de cimento, somente as folhas secas caem das árvores vez ou outra enquanto dois espíritos conversam sob um túmulo.

- Olhe irmão. Lá vem um belo cortejo fúnebre.

- Todo dia eu vejo pelo menos um.

- O homem que está ao lado do esquife, acompanhando o cadáver, tem as mesmas características dele. Ora grita e, em momentos, se acalma. Parece tentar chamar sua atenção.

- Ele está inconformado com o próprio desencarne.

- Imagino que seja assim mesmo.

- É assim. Foi contigo e serão com outros.

- Comigo? O que quer dizer?

- Que você também desencarnou há alguns dias atrás. Não se lembra devido ao choque. Os irmãos socorristas trabalharam perfeitamente e conseguiram recuperar seu corpo plasmado.

- Mas porque não me lembro?

- A sua mente akáshica precisou de reparos mais minuciosos. Foram exatamente três dias, a contar com o repouso. Por isso não se lembra do seu próprio enterro, estavas num hospital de uma Colônia no Plano Astral, apropriado para seu tratamento.

- Não pode ser. Estou vivo!

- Estás vivo, mas desencarnado.

- Como posso estar tão consciente?

- O espírito não morre.

- Não deveria eu estar num outro lugar?

- Cada caso é um caso. Uma série de fatores define o tratamento do desencarne.

- O cortejo está quase à nossa frente. Vamos avisá-lo de sua situação.

- Deixe-o, ele não entenderá.

- Quando poderemos auxiliá-lo?

- Em momento apropriado e autorizado.

- E se o fizesse agora?

- Ele não entenderia por causa da nossa diferente vibração. Seria como se só visse nossos movimentos labiais sem escutar o som emitido.

- Mas se fazemos parte deste novo mundo ele deveria escutar-nos, ver-nos, sei lá mais o quê.

- O Plano que estamos é o mesmo, entretanto existem diferentes  escalas vibracionais. Você ainda tem muito que aprender.

- Se estou morto, como vim parar aqui?

- Após o desencarne, quando acordou do tratamento, por motivo específico e individual, seu espírito ligou-se ao lugar que mais se afeiçoava na matéria: seu corpo físico. Atenção: considere que não são todos os espíritos que permanecem ao lado de seus cadáveres.

- Queres dizer que estamos sentados em cima de mim?

- Sobre vosso importante túmulo.

- Como sabe que meu cadáver está aqui? Que este é o lugar certo?

- Olhe na lápide. Reconhece os dados da placa?

- Sim. É meu nome Bandarra Gonzáles, data de nascimento também confere. Que dia é hoje?

- O tempo cronológico terreno não nos importa mais. Sei o que você quer calcular. São três dias após o que está na data de seu desencarne.

- Me explique porque exatamente recuperei a minha consciência aqui ao teu lado? Não poderia tê-lo feito na Colônia restauradora?

- Nada acontece sem a permissão e ordem de Deus, o Criador. Precisavas de um irmão espiritual para auxiliar-te durante o tempo que ficar neste sagrado perímetro, ligado à matéria. Acharam por bem deixar que você acordasse aqui.

- Suponho que seja você meu irmão espiritual Auxiliador.

- Exato. Permaneci pacientemente aqui até você aparecer.

- Bem, o cortejo fúnebre já passou. Podemos segui-lo?

- Podemos andar por todo perímetro interno deste Campo Santo (Cemitério). Jamais alcançar o lado externo dos brancos muros.

- Por quê? O quê acontecerá?

- Devemos respeitar a Lei de Omulu, Orixá regente do elemento terra. Enquanto estivermosem seu Pontode força estamos protegidos. Se sairmos ficamos expostos à própria sorte.

- O que poderá acontecer na rua? Já estamos mortos!

- Estamos desencarnados, livres da prisão de um corpo carnal. Entretanto existem outros Planos, que também ocupam o mesmo espaço físico, as vibrações deles se conectam e Portais podem se abrir a qualquer momento; tanto dos Planos positivos, com Seres e espíritos mentores, consoladores, orientadores, mestres, superiores, e tantos outros que irradiam e emanam energias positivas, quanto dos Planos negativos e adversos, perigosos, porém com Seres e espíritos trevosos, zombeteiros, brincalhões e afins, que perigosamente podem prejudicar a evolução do espírito.

- De que forma podem nos prejudicar?

- Sugariam energias e deturpariam o mental.

- O que podemos aprender nos Planos?

- A cada momento é dada a oportunidade de o espírito aprender, seja neste ou noutro Plano. Cabe a cada um se dar esse prazer.

- Aprender? Dentro dum cemitério?

- Acredite em mim. Primeiro deixe essa sua agitação constante. Relaxe, temos muito tempo pela frente.

- Estou curioso para ver o enterro do irmão que passou há pouco.

- Pode ir, mas lembre-se: não saia do perímetro deste Campo Santo.

- Já volto, assim que terminar.

Gonzáles volita naturalmente sem perceber até o túmulo do espírito recém-desencarnado. Chegando lá, enquanto o sepultamento procede, o espírito reluta ao ver seu corpo físico sendo enterrado dentro de uma câmara aonde irá se decompor.

Gonzáles: – Escute irmão. Pare.

Petrônio, o espírito recém chegado, percebendo que Gonzáles é o único a se manifestar por sua dor e mágoa, lhe dá atenção. Respira fundo enquanto seu corpo plasmado ainda treme por confundir os sentidos pós desencarne e aquieta-se em sua mente:

- O que está acontecendo? – pergunta perplexo.

- Você desencarnou. – diz Gonzáles.

- De que forma? – Surpreso pela afirmativa.

- Não sei. Vim aqui para avisar-lhe.

Neste momento um Ser que estava atrás de uma árvore, mas não quis aparecer fala uma única frase:

- Gonzáles, você foi orientado para não aparecer e se manifestar com este irmão.

- Quem é você? Apareça. – diz Gonzáles.

- E você quem é? – diz Petrônio.

- Sou um espírito que acabou de fazer a passagem como você! Meu nome é Gonzáles.

- Estão me enterrando. – diz Petrônio.

- Estão enterrando seu corpo físico.

- Tenho família para sustentar: mulher, filhos, etc.

- Acalme-se. Ficar nervoso e inconformado só piora a situação. Encontro-me como você, à procura de respostas a perguntas que ainda não sei como formular para obter melhor entendimento.

- De que forma consegues permanecer calmo?

- Acho que parte é de minha natureza compreensiva. A outra parte, suponho que seja devido ao tratamento que obtive em meu corpo plasmado após o desencarne.

- O sepultamento acabou, meus parentes e amigos estão se retirando em sentido à saída do cemitério. Eles não me percebem. Vou acompanhá-los.

- Serás impedido de sair.

- Por quê? Por quem? – diz Petrônio.

- Eu também não sei. Já te disse que sou novato aqui como você.

- Vamos para onde?

- Direcionaremo-nos ao meu túmulo. Deixei lá um companheiro, irmão Auxiliador, que me recepcionou quando cheguei.

Ambos caminham lentamente, percebem que conseguem observar mais do que os concretos armados das tumbas podem apresentar a um encarnado comum.

Poucos metros os distanciavam dos locais de seus sepultamentos. Ao se aproximarem do espírito Auxiliador, o mesmo desaparece desintegrando-se no ar como por encanto.

- Para onde seu amigo foi? – perguntou Petrônio.

- Não sei e prefiro não saber. – Respondeu Gonzáles

- O que faremos agora?

- Acho melhor não nos separarmos.

- Concordo. Perceba, não percebemos o tempo passar. Está quase anoitecendo.

- O espírito Auxiliador disse para não comparar o tempo do nosso espaço com o Plano Terreno.

- Mas ainda estamos na Terra.

- Num Plano Paralelo à Crosta Terrestre.

- Não estou mais entendendo nada.

- Psiu! Ouça. Escute os sons.

- São animais, devem estar perto.

- Eu identifico gatos, insetos, ratos,…

- Como conseguimos tal façanha?

- Perceba melhor: vozes…

- Nossa! É mesmo. Humanas.

- Provém dos túmulos.

A negritude da noite se faz presente. A lua está a pino. São exatamente 22:00h. As nuvens translúcidas enobrecem a arquitetura das estatuetas fúnebres construídas para enaltecer o poder econômico de seus proprietários, que adormecem os corpos físicos na eternidade transmutável da matéria orgânica terrena.

- Mas nos túmulos não existem somente os corpos físicos?

- Tais Seres devem estar por trás dos esquifes.

Ambos contornam vários túmulos e apesar de continuarem à procura, não encontram ninguém, nem nada a não serem gatos e camundongos.

- Bem, os felinos e roedores identificamos.

- Os insetos devem ser os internos das sepulturas, a corroerem os corpos pútridos, madeiras e até mesmo o concreto.

- E as vozes? De que forma explicas?

- O tempo revelará.

- Sinistro. Muito sinistro.

- Não devemos temer. É a lei natural.

- Não tenho sono. Será que dormimos?

Nesse instante o espírito Auxiliador aparece novamente e diz:

- Assim que vocês se restabelecerem, serão enviados a um local onde possam repousar tranquilamente.

Gonzáles: – Porque sumiste de repente?

Auxiliador: – Fui escoltar um novo membro que chegou.

Petrônio: – Você recepciona a todos?

Auxiliador: – A grande maioria dos espíritos.

Gonzáles: – Então você tem uma função aqui?

Auxiliador: – Sim, vocês também terão.

Gonzáles: – Viveremos eternamente neste cemitério?

Auxiliador: – Tudo dependerá de vossa compreensão.

Petrônio: – Existem espíritos que estão aqui há muito tempo?

Auxiliador: – Uns alojaram-se desde o início, outros passaram a fases de crescimento no Campo Santo, demais chegam, examinam os seus corpos já no sepulcro e seguem destino de merecimento.

Petrônio: – Qual a diferença entre um e outro?

Gonzáles: – Cada caso é um caso. São específicos.

Auxiliador: – Isso mesmo. Todos são examinados.

Petrônio: – De onde vêem as vozes que escutamos?

Auxiliador: – De vários lugares. Umas provêm de dentro dos túmulos, são irmãos espirituais que permanecem mentalmente acoplados vibracionalmente entre seu corpo físico e plasmático. Outras vozes são deste mesmo local, mas estão em Sub-Planos em escalas energéticas diferentes, são espíritos compreensivos, que angariam luz e esperam a oportunidade de evolução.

Petrônio: – E o que fazem ou falam?

Auxiliador: – Falam da vida carnal, das experiências, dos aprendizados passados e dos projetos futuros. Têm esperanças de acelerarem o progresso. Os espíritos mais ignorantes e desesperados por não entenderem sua fase reparatória, pedem socorro.

Gonzáles:   – De que forma podemos ajudá-los?

Auxiliador: – Apenas orientando. Não interferindo na situação dos mesmos. Pois eles têm a capacidade individual de superarem suas reais atribulações.

Petrônio: – Estou ansioso. O que faço?

Auxiliador: – Não tenham pressa. Tudo no Universo tem sua propriedade regeneradora e construtiva.

Nova obra – breve lançamento


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